À Segunda Vista

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Bom dia a todos os ouvintes! São 7h10min da manhã, eu sou Roberto Caspas e falo ao vivo aqui do Centro!

As manifestações começaram cedo hoje aqui na principal avenida da cidade. Uma multidão (deve ter aí, o quê, umas duas mil pessoas) está agora marchando e protestando contra a polêmica lei que criminaliza o uso de xampus em todo país.

O pelotão de choque da polícia já está posicionado, fortemente armado, esperando qualquer sinal de confusão, para interferir ostensivamente.

- Com licença, repórter Caspas?

Estou na escuta, pode falar.

- Aqui do estúdio, nós estamos curiosos. Você pode nos descrever como é essa multidão?

Sim, claro! Eles estão se aproximando com cartazes e gritos de guerra. Eu vou tentar ouvir o que eles estão gritando... É... "Governo!"... "Quero meu xampu"... peraí, está difícil de entender... "Governo! Quero meu xampu!"... "Legalize já"... "ou vá tomar..."  Desculpe, são gritos realmente... é... inapropriados. E, nossa... à medida que eles se aproximam, o cheiro de cabelo sujo fica mais forte. Realmente, não dá para ficar perto.

- Cuidado com a isenção, repórter. Nós estamos ao vivo!



Desculpem, desculpem. Eu vou tentar falar com o comando da polícia... É... bom dia, senhor comandante. Na opinião da polícia, a situação está se agravando?

- Bom dia. A situação está sob controle. Nós estamos com um efetivo suficiente e preparado para garantir a segurança da população de bem.

O que a polícia tem feito para coibir o tráfico de xampus, comandante?

- Nas últimas semanas, o trabalho foi reforçado. Só aqui na cidade, foram mais de 5 mil frascos de xampus apreendidos. Diversas marcas, para todo tipo de cabelo (ondulados, secos, lisos, com pontas duplas, entre outros) e de todo tamanho (100 ml, 200 ml, 250 ml... e até pequenos frascos de 20 ml, que são doses individuais). Além disso, os derivados também estão sendo recolhidos, como condicionadores, cremes para pentear, cremes de tratamento, cremes fixadores, etc. Isso porque há denúncias de que pode haver xampus escondidos nessas embalagens, o que é totalmente ilegal.

Muito obrigado, comandante. Bom, enquanto a manifestação não se aproxima da polícia e não há confrontos, nós voltamos ao estúdio. É com você, Geraldo Sedoso.



- Ao vivo do Centro da cidade, nosso repórter Caspas trazendo as últimas informações sobre a marcha do xampu. Agora são 7h17min, e vamos saber como ficou a sessão da Câmara dos Deputados, que aconteceu na noite de ontem e que debateu essa polêmica lei. A reportagem é de Tiago Penteado.

Não terminou bem a sessão na Câmara dos Deputados na noite de ontem. Após muita discussão e opiniões contrárias, continua proibido o uso e o comércio de xampus em todo território nacional. A lei entrou em vigor há três semanas, causando o caos em boa parte da população. O deputado Enrolando Borba está preocupado:

"Não se tem mais respeito nesta casa! Onde já se viu tamanha petulância dos meus colegas legisladores? Se o povo quer xampu, vamos dar xampu para o povo!"

Mas a deputada Íris Pentelha discorda:

"O povo não precisa de xampu, senhores! O povo precisa de dignidade! O projeto do governo federal 'Mais Sabonetes' já está atendendo a todas as famílias de baixa renda cadastradas, que poderão SIM ter seus direitos garantidos de terem os cabelos limpos, sem precisarem depender do uso dessa droga de xampus"

Segundo a bancada favorável à decisão do governo, a criminalização foi necessária devido aos efeitos químicos, físicos e psicológicos causados nas pessoas usuárias dessas substâncias capilares, conforme explica o senador Calvo Patos:

"Tu veje... Não é di hoje que o xampu... interrrfere nos rrrelacionamentos sociais... entre as pessoas da nossa sociedade. O usuário... que faz-se o uso desta substââância... dota-se de uma coragem, de uma cerrrteza pessoal... de uma segurââânça proporcionada pelo:

número 1: pelo cheirinho do xampu na hora do banho, que já interfere nos receptáculos nasais que levam a sensação de prazer ao cérebro... deixando assim... o usuário com suas ciências neurais alteradas;

número 2: pela confiââânça de que está saindo de casa com um cabelo mais forte, saudável e mais poderoso do que realmente é... e NAS RUAS sabe-se lá... o que um sujeito assim... dotado de tal falsa consciência de superioridadi... é capaz de fazer;

número 3: com a criminalização dos xampus, nós botamos um ponto final... Final... no preconceito... e na diiiiscriminação... da diferença de cabelos (inclusive a Falta deles... dos cabelos... em uma parrrcela da população...);

número 3, para finalizar: nããão serããão toleraaaadas... nenhum tipo de açããão... que desrespeeeeite os cidadãããos... que querem contribuir com a lei"

Para a rádio Notícia Agora, repórter Tiago Penteado.



- Voltamos ao vivo para a avenida, onde o repórter Roberto Caspas tem informações atualizadas. Parece que a população está prestes a se confrontar com a polícia. Agora são 7h28min. Bom dia, Caspas.

Sedoso, os ânimos se alteraram. O povo está aos berros aqui... Vamos tentar falar com uma manifestante... Oi, o que você pensa dessa nova lei?

- Isso é um desrespeito!!! Olha para o meu cabelo, moço! Olha! Vê se isso é cabelo de gente?! Faz três semanas que eu lavo ele só com água e sabão... Está duro, ressecado, cheio de frizz! O senhor acha certo?!

Eu vi a senhora batendo boca com um policial. O que aconteceu?

- Ele veio, olhe só, ele teve a ousadia... de vir cheirar meu cabelo... para saber se eu usei xampu!!! Isso aqui é um protesto pacífico, consciente! Quem ele pensa que eu sou? Uma criminosa?!

Deixa eu tentar falar com o policial aqui... Com licença, uma palavrinha, por gentileza. Há suspeita de uso de xampus aqui na passeata?

- Positivo! Nós da polícia somos treinados para reconhecer o cheiro do xampu à distância. Se você respirar bem fundo (uunnnffff...) pode sentir o tom cítrico de algum Garnier vindo daquela área ali, ó.

Opa! Opa! Parece que tem um confusão logo mais ali à frente, eu vou tentar chegar lá. Com licença... Com licença... Dá uma licencinha, senhor? Oi... Realmente, há uma briga aqui. A polícia está imobilizando um jovem adolescente. Meu Deus! Ele estava em posse de quatro frascos de xampu nas cinturas sob a camiseta! É isso mesmo, quatro frascos. A polícia está abrindo e despejando no chão...

- Está confirmado, é xampu. Cabelos ressecados. Prende esse vagabundo aí.

- Não! Me solta!! LEGALIZE JÁ!!!

"Legalize já! Legalize já! Legalize já! Legalize já!"

O povo está gritando em apoio ao adolescente. A polícia está levando ele para a viatura. Voltamos aos estúdios.



- Que lastimável... É por causa de pessoas assim que o movimento perde força... Bom, obrigado repórter Caspas. Qualquer novidade, nos avise. Agora são 7h44min. Comentários agora com a credibilitosa opinião do especialista Folículo Arantes. Bom dia.

"Bom dia, é... uma situação sem precedentes na história do nosso país. Em várias regiões, em vários Estados, as marchas ganham as ruas, pela descriminalização do xampu. Agora, ao contrário do que alegou o senador Calvo Patos agora há pouco, é preciso compreender os impactos socioeconômicos do xampu na sociedade para entender quais os reais motivos por trás dessa lei.

Primeiro ponto: o principal beneficiário direto dessa mudança de cultura higiênica é a indústria saboneteira, que precisa triplicar a produção de sabonetes para saciar a necessidade do povo. Segundo: por que o sabonete também não é criminalizado? Todos sabem que os efeitos do sabonete são tão (ou mais) prejudicias que o uso do xampu. Dependendo da procedência do sabonete, o ressecamento dos fios capilares pode resultar até mesmo na morte do couro cabeludo, com o tempo, com as quedas frequentes, etc. Se é para proibir, que proíba-se tudo!

Terceiro ponto: com a legalização dos xampus, o tráfico encerrará 90% dos índices de criminalidade, porque todos sabem que o mercado negro dos xampus, encarecidos, acaba financiando os assaltos, os furtos. Aumenta a sensação de que estamos todos fazendo algo ruim, desprezível, etc. Consequentemente, essa sensação permite que esses usuários se sintam inclinados a experimentarem produtos mais fortes e viciantes, como são os casos dos condicionadores, dos cremes para pentear, etc. Até chegarem aos extremos, em que procuram centros de beleza para fazerem hidratação, progressivas, piastras, cortes ousados, pinturas, e por aí vai.

É, sem dúvida, um assunto para ser ainda muito discutido na sociedade."



- Obrigado, nosso comentarista Folículo Arantes. São 7h52min, estamos recebendo ligações dos ouvintes. Bom dia, com quem eu falo?

- Bom dia, Seboso!! Aqui é a Suzete.

- Bom dia, Suzete. Só uma correção, meu nome é Sedoso, não Seboso. Haha! Mas me diga, qual sua opinião sobre essa lei?

- Então, Seboso, meu filho vinha agindo estranho. Demorando demais no banheiro. Aí achei que era normal, coisa da idade. Mas aí ontem eu passei em frente à porta do banheiro, e senti aquele cheiro... aquele típico...

- Sei...

- Eu esperei ele sair, e entrei no banheiro, vasculhei tudo, não achei nada. Mais tarde, ele saiu com uns amigos, e eu fui revirar o quarto dele. Até que eu encontrei. Dois frascos pequenos de xampu, Seboso... Meu filhinho...

- Calma, senhora, não precisa chorar...

- Que eu criei com tanto esforço, Seboso!! Metido com essas coisas agora. Daí no fim da noite ele chegou em casa, eu estava esperando na sala. Perguntei "o que é isso aqui no teu quarto, Luís Miguel?", mostrando o vidrinho. Ele arregalou os olhos, não sabia responder. Então alguém bateu na porta, era uma menina. Ela estava esperando ele do lado de fora. Ela veio entrando, sem saber que eu estava ali, e dizendo bem assim "gato, já pegou um bagulhinho pra mim?"

- Cristo...

- Seboso!! Ele tava usando xampu para impressionar uma menina!! E ele ia repassar a droga pra ela também!! Aquela ruiva vagabunda!! Do cabelo pintado!! Querendo roubar meu filho de mim, destruir nossa família!!

- E o que você fez? Calma, não chora...

- Eu fiz o certo... Chamei a polícia.

- Não?! Que coragem! Parabéns... Deve ser muito difícil...

- Partiu meu coração... mas eu sei que fiz o certo. Como ele é menor de idade, ele só vai cumprir medida socioeducativa, um tratamento à base de muito sabonete Phebo e oração.

- Muito obrigado pela sua participação, dona Suzana.

- É Suzete.

- Bom, são 8h02min, o programa vai ficando por aqui. Muito obrigado pela sua audiência. Nós voltamos ao meio-dia com mais notícias sobre a marcha do xampu ou a qualquer instante com o plantão ao vivo do nosso repórter Roberto Caspas. Um abraço do seu amigo Geraldo Seboso - digo, Sedoso. Bom dia!



...

Alô? Oi, amor... Cheguei em casa, sim... Ah, hoje o dia foi tenso... Foi... Cobri ao vivo a marcha do xampu... Não, não, estou bem... Mas teve repórter da concorrência lá que levou uma sabonetada no olho, foi tenso... Escuta só: por que você não vem hoje aqui, para a gente namorar um pouquinho? Hein? Hah... a gente toma um banhozinho juntos, que tal? A gente pode... lavar o cabelo... sacou...? Aham... Você acha que no meio de todo aquele povo, eu não ia descolar uns vidrinhos para nós? Ouvi dizer que fazer amor depois de usar xampu dá uma sensação e tanto... Ah, você gosta, é? Safadinha... Vem cá, então... vou te lambuzar inteira de xampu, sua gostosa! Beijo...


Djonatha Geremias
Ilha de Florianópolis/SC, 1992.

Lucélia preparava mais um almoço qualquer.

O calor era insuportável, o verão mais quente que já presenciou.

A cozinha não tinha ventilação alguma.

Seu barraco ficava no alto de um morro de um bairro pobre da ilha.

João chegou sereno em casa, com um sorriso simples e um olhar suave para a mulher que suava diante do fogão à lenha.

"Que dia, heim", disse ele dando um beijo no rosto de sua companheira.

"Hoje não deu tempo de preparar muita coisa", disse ela meio estressada, "você pica esse bife e mistura com o arroz. Tem ainda um pouco de ervilha num pote na geladeira. E o suco, tem que fazer, o saquinho tá na gaveta".

Ela saiu, tirou o avental e foi deitar-se na rede, próximo a um espaço depois da porta, o qual ela gostava de chamar de varanda.

João almoçou sozinho tranquilo.

Passou pela mulher e disse "Hoje à noite, posso levar as crianças na praça do Centro, pra tomar um sorvete", ao que ela respondeu "Fique à vontade... Mas não demora, eu não quero que elas se acostumem a ficar na rua de noite."

Ele colocou seu boné e saiu para seu segundo emprego, do turno da tarde.

As roupas estendidas no varal (um arame amarrado a uma árvore e a uma viga de madeira da casa) não se moviam, sinal de que nenhuma brisa soprava naquele calor infernal.

Tonta com tal ar brasil, Lucélia adormeceu.

Acordou quase no fim da tarde, com mosquitos picando seus pés.

Ela se levantou em um susto, admirada por ter dormido tanto.

Recolheu a roupa, lembrando-se de que a casa estava uma bagunça e de que as crianças ainda não haviam chego da creche.

"De certo, o velho já levou elas pro Centro", pensou.

A noite passou devagar, enquanto a exausta mulher faxinava, de última hora, a casa.

Já era hora de todos estarem dormindo, mas ela estava sem sono algum.

Ninguém havia retornado.

Uma inquietação começou a tomar conta de seu corpo.

Pensou em cada palavra de repreensão que despejaria sobre João quando ele retornasse.

Ele não retornou.

Nem as crianças.

Uma semana depois, com os olhos vidrados e exaustos após chorar noites seguidas, Lucélia reconheceu o corpo baleado de João em um córrego longe dali.

Os policiais a chamaram ao encontrá-lo, mas não tinham certeza se era o mesmo homem de quem ela havia prestado queixa e a quem acusara de ter sequestrado suas crianças.

Nenhum sinal dos dois meninos e da menina.

Junto ao corpo de João, a perícia encontrou um revólver descarregado, registrado no nome de Edivaldo Rosso Barcelos.

Lucélia entrou em estado de choque ao ouvir tal nome.

Correu para casa, pegou umas fichas telefônicas e foi para um telefone público.

A primeira ligação interurbana não foi atendida, a ficha voltou.

Na segunda, uma voz de mulher atendeu.

"Alô? Eu preciso falar com o Beto. É urgente"

"Quem deseja?"

"Pelo amor de Deus, é urgente".

A mulher que atendeu não queria cooperar "Se não disser quem é, eu não vou poder chamar ele, não"

"Diga que é... uma amiga distante"

"Acontece que o Beto é casado e não precisa de nenhuma amiga, muito menos de uma distante"

"Espera, quem fala?"

"É a esposa dele, por quê?"

"Se eu te disser quem sou, você promete não contar a mais ninguém?"

"Olha, prometer eu não posso prometer, mas se você quer falar com ele, vai ter que dizer quem é..."

Nisso, Beto viu a esposa ao telefone e arrancou dela o aparelho "Tu não presta pra nada mesmo, heim Judite, vai lavar a louça, que tá cheio de cliente aqui! Fica só de papo no telefone!"

"Eu não vou lavar a loça, acabei de fazer minhas unhas no salão da Déte"

"Alô?...Sim, é ele... Você?...Nossa senhora..."

"Quem é essa vadia, Alberto?"

"(Cala a boca, Judite!) Sim, claro, mas eu não sei onde ele está. Ele está foragido da polícia há anos... Por estupro, parece... Não, nenhuma pista... Mas, e você? Onde está? O que houve?... Entendo... Não, ela já veio a falecer, há dois anos... A filha se mudou para a capital... Alô? Alô?"

"Quem era, Betinho?"

"Uma amiga distante..."

"Se tu tiver me pondo chifre, homem, eu te mato!"

"Eu ainda tô vendo a louça suja, mulher…"

Lucélia voltou pensativa para casa.

As dúvidas sobre a morte de João e o desaparecimento das crianças permeavam o coração aflito de Lucélia, mas de uma coisa ela estava certa, por pensar em Edivaldo: corria perigo ali, precisava se esconder.

Um policial reapareceu em sua casa e, ao ser atendido, foi logo dizendo "João não foi assassinado. Ele se suicidou. As digitais dele batem com as da arma encontrada no mato"

Ela o olhou, incrédula "E vocês acreditam nisso? Se ele tivesse se matado, como a arma estaria no mato? É meio óbvio, não?"

"O tiro não foi necessariamente a causa da morte, senhora. Ele morreu afogado no córrego, o tiro disparado por ele mesmo só o fez não ter forças para sobreviver… digo, para se levantar e sair do córrego."

Ela sentou-se, ainda não fazia sentido algum.

"Se a senhora quiser, posso ficar aqui essa noite para sua segurança".

Ela o fitou por uns segundos, recusando em seguida.

Ele se aproximou, olhando-a maliciosamente "Não é bom para uma senhora tão boa ficar sozinha num lugar desses..."

Ela continuou em silêncio.

Ele se aproximou dela, tocando em seus ombros.

Em dois segundos, o copo d'água sobre a mesa estilhaçou-se no chão, após ser arremessado por Lucélia em direção ao rosto do policial, que conseguiu se defender, ficando apenas parcialmente molhado.

Ela saiu correndo, desaparecendo entre as ruas de chão estreitas e obscuras do morro.

Um mês depois, Lucélia reencontrou um dos meninos, Natan.

O garotinho estava sendo cuidado por um casal de andarilhos, numa praia do sul da ilha.

O casal era bom, encontraram o menino há umas semanas e vinham cuidando dele carinhosamente, deixando de comer o pouquíssimo que tinham para dar a ele.

Não tiveram coragem de entregá-lo à polícia, por já terem se apegado ao pequeno.

E também devido ao traumático fato de a mulher não poder ter filhos.

Não foi difícil convencê-los a devolver o menino, vendo e supondo o casal que Lucélia era uma mãe realmente devota e preocupada.

O casal honestamente também informou não saber de nada sobre as duas outras crianças desaparecidas.

Até o final daquele dia, Natan estava em um ônibus rumo ao Paraná.

Lucélia despediu-se do menino com um beijo e uma lágrima, e, do motorista, com um endereço e um aviso de atento à responsabilidade, soado mais como uma ameaça.


Continua...

Djonatha Geremias
Paro o carro na esquina:
- Oi, com licença. Uma informação, por favor.
- Pois não? - responde a mulher sorridente.
- Como faço para chegar na Escola Dom João?

Ela suspira, olha para o horizonte e diz:
- Você não é daqui, né?
- Er... Não, realmente não...
- É muito simples. Sabe a casa do falecido Pedro?
- Não, eu não sou daqui...
- O Pedro, do sindicato.
- Não faço ideia...
- Todo mundo conhece o Pedro, marido da Vânia.

Eu sorrio, paciente:
- Mas é que eu não sou daqui.
- Bom, mas você perguntando pela casa do Pedro, é só virar a esquina, que você já vê a escola.

Vou acelerando o carro devagar e agradecendo, enquanto ela repete com gestos como eu deveria virar a esquina. Sigo umas duas quadras e paro um senhorzinho, desses que parecem ter vivido 80 anos na cidadezinha.
- Oi, bom dia. Uma informação, por favor.
- Pode dizer.
- Onde fica a casa do falecido Pedro, marido da Vânia?

Ele suspira, olha para o horizonte, depois para mim de novo, e diz:
- Quem?!
- O Pedro, marido da Vânia, já falecido...
- Ah, o Pedro da Vânia?
- Isso!
- Do sindicato?
- Isso.
- Ele já morreu.
- Sim, eu sei, mas onde é a casa dele?
- É lá no bairro Januário.
- E por onde eu vou para ir a esse bairro?
- Hã?!
- ONDE FICA... O BAIRRO? - respondo alto, mas educadamente.

Ele me fita por um momento, talvez achando que fui insensível.
- Você não é daqui, né?
- Não...
- Faz assim, então, vou te explicar. Passando o bairro Vera Cruz, vira às direita e vai ter uma lomba. Desce a lomba, vira às esquerda e vai reto. Passa um quebra-molas, passa dois, passou o terceiro, tu vais ver uma casa grande, amarela.
- É ali?
- Não, é do lado.

Sigo dirigindo, tentando memorizar a orientação do velhinho. Espera aí... Onde fica o bairro Vera Cruz? Um menino vem passando de bicicleta devagar.
- Oi, uma informação, por favor! Onde fica o bairro Vera Cruz?
- O Vera Cruz?
- É...

Ele olha para o bendito horizonte e diz:
- É para lá, não sei.
- Tá, mas... Eu sigo reto aqui?
- Se o senhor quiser...
- Não, mas...
- O senhor não é daqui, né?
- Nunca vim aqui.
- Pergunta lá no bar do Nivaldo, que eles sabem.

O menino me deixa sozinho e continua de bicicleta. "Bar do Nivaldo"?
- Oi, uma informação, por favor...
- Pois não, meu querido? - diz um cara, já se apoiando na minha janela.
- Onde fica o Bar do Nivaldo?

Ele fica olhando para dentro do carro. Depois olha o horizonte.
- Não é daqui, né?

Eu só sorrio com uma cara de coitado...
- É em frente à Delegacia de Polícia.
- Por favor! E onde fica essa delegacia?! Por favor!

Ele se desencosta do carro, me olha desconfiado.
- Por quê?
- É que eu preciso ir ao Bar do Nivaldo perguntar onde fica o... Calma, você pode me dizer. Onde fica o bairro Vera Cruz?
- Se a gente não passar em frente à Polícia, eu te levo lá...

Eu olho atônito para o sujeito.
- Entra aí.

A gente dirige uns 800 metros ziguezagueando ruas que nem devem estar no mapa oficial da cidade. O lugar é apertado e deserto.
- Pronto, é aqui.
- Ah. Bom, mas eu me esqueci de falar que eu não quero ficar aqui, eu quero passar daqui e pegar a rua da lomba, para ir ao bairro Januário.
- TU TÁ ME TIRANDO?! Tu tá me tirando?!
- Calma! - digo já quase chorando de medo do sujeito - Não, eu só quero chegar na casa do falecido Pedro, marido da Vânia...
- Cala a boca!! Vou descer aqui!

Quando ele se vira para descer, uns quatro adolescentes aparecem ao redor do carro, mal-encarados.
- O quê que o bacana tá procurando na nossa zona?
- Eu só estou perdido!
- Perdido? Tenho cara de palhaço? Tu tá andando no Vera Cruz com esse filha-da-mãe, que deve pra Deus e todas as "boca" da região?
- Eu não conheço ele, eu juro! Eu só quero sair do bairro, pegar a rua da lomba, virar à esquerda, seguir reto, passar três lombadas e chegar no bairro Januário para perguntar onde fica a casa do falecido Pedro, marido da Vânia!

O liderzinho do grupo olha para os amigos, olha para o horizonte, chega perto de mim – que nessa hora estou tremendo dentro do carro feito um cachorro acuado – e diz:
- ‘Cê não é daqui, né?
- Juro que não...
- ‘Seu Pedro, o do sindicato?
- Uhum...
- Pra tua sorte, eu sou muito respeitoso com a família do falecido Pedro. ‘Que meu pai era amigo dele, então eu sou amigo de quem é amigo do ‘Seu Pedro.

Ele chega perto do meu rosto, me encarando.
- Tu é amigo dele, não é?
- Desde pequeno.

O rapaz sinaliza para os subordinados, que tiram à força o estranho de dentro do meu carro.
- Agora tu faz o seguinte. Direita, esquerda, esquerda, direita, direita, esquerda, esquerda, direita e segue reto. É dois contorno que ‘ce vai fazer.
- Ok...
- Vai reto que vai sair na rua da lomba.
- Obrigado...
- Mas eu vou contigo, e vâmo junto na casa do ‘Seu Pedro, que faz tempo que não peço a benção da Dona Vânia.

Ele entra no carro. Em pensamento, eu rezo para a associação católica dos santos, pais-de-santos, exército dos anjos, deuses da Índia, Budha e até para o Silvio Santos, que minha avó dizia que funcionava. A gente segue o rumo.
- O que o amigo vai querer com a Dona Vânia?
- Eu... eu só...
- Ferrou, maluco!! Os homem cercaram a entrada! Vira esse carro! Vira esse carro, caramba!!

Policiais e duas viaturas trancavam a saída daquela favelinha onde eu havia me metido. Logo reconhecem a criatura do meu lado. A rua é estreita demais para eu virar, e eles pegam a gente. Eu choro feito criança. Por sorte, nos levam para a delegacia.
- O senhor está alegando não conhecer o Zé Rampera aqui?
- Exatamente, senhor delegado.
- Você estava comprando drogas na Favela da Vera Cruz?
- Não, senhor, eu estava indo pedir uma informação.

O delegado olha pela janela, em direção ao horizonte, depois diz:
- Bem se vê que o senhor não é daqui.
- Obrigado pela compreensão.
- Seus documentos estão ok, sem antecedentes, sem drogas. Assina aqui que eu te libero.

Assino uma folha que nem leio o que é.
- De que informação o senhor precisa?
- Preciso achar a rua da lomba depois do bairro Vera Cruz.
- Por quê?
- Preciso chegar no bairro Januário e perguntar pela casa do falecido Pedro...
- Não conheço. Mas aqui em frente, tem o Bar do Nivaldo. Pergunta ali.

Agradeço, atravesso a rua e entro no bar. Um homem corpulento me olha de trás do balcão.
- Você é o sujeito que está procurando pelo Pedro, não é?
- Pedro do sindicado? Falecido? Marido da Vânia?
- E tem outro?
- E como sabe que sou eu?
- A cidade inteira só fala disso.
- Pode me ajudar?

Ele vira o pescoço para olhar o horizonte, mas eu o agarro pelo colarinho:
- Não! Eu Não Sou Daqui! Só, Por Gentileza, Me Diga Como Eu Chego Na Casa Desse Pedro, Pelo Amor De Deus!
- Calma, amigo... É só virar na próxima à esquerda, passar três quebra-molas, a casa do Pedro fica ao lado de uma casa amarela, grande...
- E a rua da lomba?
- É esta aqui, você já passou pela lomba logo ali atrás.
- Obrigado... – digo, soltando devagar o colarinho do homem do bar.

O caminho é tranquilo. Finalmente, a casa amarela e grande. Ao lado, uma casinha miúda, onde uma senhora está cuidando do jardim.
- Dona Vânia?
- Sim?
- Tudo bem? Nossa... demorei para encontrar sua casa.
- Posso ajudar?

Eu olho para ela, cansado, mas satisfeito... Ela continua me observando sem entender... Sorrio disfarçadamente... O que raios eu estava procurando mesmo?
- Eu era amigo do Pedro, que Deus o tenha.
- Ah, é?
- Desde pequeno...
- Nunca te vi.
- Mas eu me lembro da senhora. Só vim, humildemente, pedir sua benção.

Os olhos da senhorinha lacrimejam. Eu me ajoelho diante dela, com a cabeça curvada. Algumas pessoas na rua olham a cena.
- Que Deus e Nosso Senhor Silvio Santos te abençoem, meu filho.
- Amém.

Rumo para casa contente. Fiz algo de bom. A senhorinha se sentiu importante. Fico pensando que tudo na vida tem um propósito. Sabe-se lá o que isso significou para ela... Dirijo fitando o horizonte, feliz com os acasos do destino. Chego em casa, tomo um banho quente, já é tarde da noite. A luz do telefone indica que tem mensagem na secretária eletrônica.

“Alô, senhor Silva?! Aqui é a Marielza, diretora da Escola Dom João... A sua ex-mulher disse que hoje o senhor viria buscar seu filho pela primeira vez, mas já é quase noite e ele ainda está aqui... Ele está chorando... Espero que o senhor não tenha se perdido... É fácil chegar até a escola... Sabe onde mora o falecido Pedro? Ah, o senhor não é daqui, né? Mas é só vir perguntando, que não tem erro..."


Djonatha Geremias
I
Em um reino distante
Em uma época muito presente
Havia um príncipe adolescente

Tão frágil, vivia para matar dragões
Mas a cada fera assassinada
O realezo se cortava com o fio da espada

Aos poucos, a fama dele se espalhou
E, por aldeões e meretrizes,
Foi conhecido pela alcunha de "o Príncipe das Cicatrizes"

Todavia, não se orgulhava do sangue que derramava
Por penitência, jamais ocultava o rosto marcado
Até que, certo dia, uma jovem sentou ao lado

Ela procurou os olhos dele
Ele os escondeu sob os longos cabelos
Mas ela conseguiu vê-los pelo reflexo no espelho

— Você é tão belo, como pode se esconder?
Eu soube que jamais escondeu a face
Por que se coloca neste impasse?

— Quem me dera saber a resposta, donzela
Pela primeira vez, me envergonho
Não pelas marcas, mas pelo significado medonho

— Meu pai é um mago ancião
Conhece muitas poções, jovem senhor
Certo que sabe uma cura para tão triste caçador

— Minha tristeza não se cura com alquimia
Faz parte de minha natureza obscura
Sonhar em ser diferente é loucura

— Se quer acreditar assim, que seja
Não me importa qualquer passado cicatricial
Seus olhos são muito bonitos, por sinal

O nobre adolescente enrubesceu
Tentou esconder ainda mais o rosto
Sem sucesso, de alma já estava exposto

— Não tente me tirar o desgosto
De caminhar por esse mundo sob tal indignidade
Acaso sabes o porquê dessa monstruosidade?

A moça se calou
Olhou para o chão e suspirou
— Cada cicatriz foi um dragão...

O príncipe se levantou rápido
Seriamente, a encarou lá de cima
— Pior que isso: ainda oculta é minha sina

Em passos determinados, ele se afastou
E só então percebeu, já de costas
Quem era a jovem, que não mais lhe deu resposta

Na verdade, ele não queria acreditar
Teria matado tantos dragões em vão?
Atormentado, decidiu pela solidão


II
A filha do mago recorreu ao pai
— Que fórmula milagrosa, meu senhor,
poderia acabar com esse desfavor?

Com olhar silencioso de sabedoria
O velho descartou qualquer milagre
— Nada pode salvar aquele cabeça-de-bagre

— Que mania tem o homem
De achar que tudo é absoluto
A desesperança é o maior dissoluto!

Rindo, o mago se ergueu
Tudo o que precisava era de um pouco de fé
O último elemento que despejou em uma xícara de café

— Tome, filha amada, dê a ele de beber
Ele precisa aceitar de forma consciente
Do contrário, de nada adiantará esse recipiente

Obstinada, a garota se empenhou em encontrar o príncipe
Triste notícia a de que ele havia saído em mais uma missão
Se não corresse a tempo, lá se iria mais um dragão

Como um príncipe tão frágil conseguia, sem se cortar,
Atravessar bosques, montanhas, vales e despenhadeiros,
E ainda fazia no próprio corpo cortes tão certeiros?

Sem armaduras, espadas ou escudos
A donzela enfrentou caminhos tortuosos
Despistou feras e se esquivou das tribos de criminosos

Chegou, maltrapilha, finalmente
Ao Vale dos Demônios Alados
Onde um dragão furioso deixou o príncipe encurralado

Com a boca seca, a jovem olhava o rapaz
Prestes a ser massacrado pelo fogo draconiano
Como ela, de longe, poderia evitar o destino tirano?


III
O Príncipe das Cicatrizes encarava a besta
Dessa vez, sem intenção de levá-la à morte
Em nome de todos os dragões já ceifados, se entregaria à sorte

Tentou se lembrar do primeiro monstro abatido
Parece que nunca houve um início
Como se sempre houvesse matado, sem princípio

Se lembra também de nunca ter sentido medo
Apenas a imposição de ter que defender o reino
Matava com esmero, sem nunca ter necessitado de treino

O castelo em que morava era tão vulnerável
E um quarto especial tão quente e aconchegante que tinha
Que transformaria qualquer princesa na mais feliz rainha

Desventuradamente, havia a ameaça dos dragões
O risco contínuo de um ataque iminente
Que princesa aceitaria viver sob esse repente?

E nessa jornada eterna, abriu mão do castelo
Para, antes de qualquer sonho, aniquilar todos os dragões existentes
Mesmo que, deles, fosse derramado sangue inocente

O que começou como capricho
Um corte na carne por um dragão desvivido
Tornou-se o destino de nunca mais, por uma princesa, ser querido

De que adiantaria exterminar todos os dragões do mundo
E ficar para sempre em um castelo perfeito, sozinho
Melhor então deixar de existir, sumir, aceitar o descaminho

Diante da última fera que encontraria em vida
A redenção vinha em forma de permitir a vingança, tão cedo
E ninguém saberia que o Príncipe das Cicatrizes era, na verdade, o Príncipe do Medo


IV
Sentindo o calor mortífero
Ouviu de longe um grito
Tão feminino e tão aflito

Reconheceu de longe a filha do mago
Sofrida, angustiada, desnecessária...
De que a serviria presenciar essa morte ordinária?

Até o dragão, que estranhamente já aparentava hesitar
Virou-se para olhar a origem do som
Seria esse um sinal mau ou bom?

Com um frasco na mão
Trêmula, despejou um líquido na xícara dada pelo velho abobado
Que poder místico haveria ele preparado?

Como em um relance
Ela tentou se lembrar da advertência paternal
Beber consciente ou aceitar aquele mal

Sem armas ou tempo para pensar
Só restava o elixir na mão
Em um momento de desespero, bebeu tudo, sem razão

Como se fosse mágica (e por que não?)
O dragão levantou voo e pousou diante da dama, febril, como em brasas
Rugiu aos céus e deitou-se, abraçando-a com as asas

Atônito, o príncipe se ajoelhou
Olhou para a cena sem querer acreditar
Como criança arrependida, lentamente começou a lacrimejar

O dragão urgia sofrido
Como quem chorava, complacente
Enquanto a filha do mago morria ali, lentamente

Sentindo-se culpado,
O Príncipe das Cicatrizes teve a última ferida
A mais mortal e dolorida

Viu aquela garota linda, que poderia facilmente ser sua rainha,
Sucumbir, do nada, a uma morte gradual
Ele sentiu a real dor da morte de um inocente, por conta do próprio mal

Incapaz de suportar a verdadeira desonra
Desembainhou, pela última vez, a espada afiada
E cravou as lâminas na própria garganta, onde a culpa estava engasgada


V
Em um reino distante
Em uma época muito presente
Havia um príncipe adolescente

Ele queria amar em segurança
Mas não existe amor sem riscos
Seria um relâmpago incompleto, um corisco

Queria proteger o próprio coração vulnerável
De todos os monstros dos ciúmes, medos e incertezas
Inseguro, não deixou amor algum desfrutar de sua beleza

Quando o destino trouxe o amor predestinado
Recusou-o, enclausurando-se na própria crença
Tornando a solidão a própria sentença

A alma gêmea, o amor que enxerga por através do olhar
Filha do sábio, do criador, do Pai, do velho mago
Não desistiu dele, lutou e fez, por fim, o sacrifício arriscado

O príncipe viu o medo, do qual viveu querendo derrotar
Se mostrar, de fato, o guardião do amor prometido
Permanecendo até o último segundo ali, em prantos, detido

O Pai já sabia que a única forma de salvar o príncipe
Seria o sacrifício do verdadeiro amor consciente
E o amor estava mais do que disposto a isso, feliz ou infelizmente

Era uma vez um amor
Que morreu por insegurança
Arrependido, desiludido e sem esperança


Texto: Djonatha Geremias