À Segunda Vista

Ocorrência Nº 19/89 - Cap. 2

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Ilha de Florianópolis/SC, 1992.

Lucélia preparava mais um almoço qualquer.

O calor era insuportável, o verão mais quente que já presenciou.

A cozinha não tinha ventilação alguma.

Seu barraco ficava no alto de um morro de um bairro pobre da ilha.

João chegou sereno em casa, com um sorriso simples e um olhar suave para a mulher que suava diante do fogão à lenha.

"Que dia, heim", disse ele dando um beijo no rosto de sua companheira.

"Hoje não deu tempo de preparar muita coisa", disse ela meio estressada, "você pica esse bife e mistura com o arroz. Tem ainda um pouco de ervilha num pote na geladeira. E o suco, tem que fazer, o saquinho tá na gaveta".

Ela saiu, tirou o avental e foi deitar-se na rede, próximo a um espaço depois da porta, o qual ela gostava de chamar de varanda.

João almoçou sozinho tranquilo.

Passou pela mulher e disse "Hoje à noite, posso levar as crianças na praça do Centro, pra tomar um sorvete", ao que ela respondeu "Fique à vontade... Mas não demora, eu não quero que elas se acostumem a ficar na rua de noite."

Ele colocou seu boné e saiu para seu segundo emprego, do turno da tarde.

As roupas estendidas no varal (um arame amarrado a uma árvore e a uma viga de madeira da casa) não se moviam, sinal de que nenhuma brisa soprava naquele calor infernal.

Tonta com tal ar brasil, Lucélia adormeceu.

Acordou quase no fim da tarde, com mosquitos picando seus pés.

Ela se levantou em um susto, admirada por ter dormido tanto.

Recolheu a roupa, lembrando-se de que a casa estava uma bagunça e de que as crianças ainda não haviam chego da creche.

"De certo, o velho já levou elas pro Centro", pensou.

A noite passou devagar, enquanto a exausta mulher faxinava, de última hora, a casa.

Já era hora de todos estarem dormindo, mas ela estava sem sono algum.

Ninguém havia retornado.

Uma inquietação começou a tomar conta de seu corpo.

Pensou em cada palavra de repreensão que despejaria sobre João quando ele retornasse.

Ele não retornou.

Nem as crianças.

Uma semana depois, com os olhos vidrados e exaustos após chorar noites seguidas, Lucélia reconheceu o corpo baleado de João em um córrego longe dali.

Os policiais a chamaram ao encontrá-lo, mas não tinham certeza se era o mesmo homem de quem ela havia prestado queixa e a quem acusara de ter sequestrado suas crianças.

Nenhum sinal dos dois meninos e da menina.

Junto ao corpo de João, a perícia encontrou um revólver descarregado, registrado no nome de Edivaldo Rosso Barcelos.

Lucélia entrou em estado de choque ao ouvir tal nome.

Correu para casa, pegou umas fichas telefônicas e foi para um telefone público.

A primeira ligação interurbana não foi atendida, a ficha voltou.

Na segunda, uma voz de mulher atendeu.

"Alô? Eu preciso falar com o Beto. É urgente"

"Quem deseja?"

"Pelo amor de Deus, é urgente".

A mulher que atendeu não queria cooperar "Se não disser quem é, eu não vou poder chamar ele, não"

"Diga que é... uma amiga distante"

"Acontece que o Beto é casado e não precisa de nenhuma amiga, muito menos de uma distante"

"Espera, quem fala?"

"É a esposa dele, por quê?"

"Se eu te disser quem sou, você promete não contar a mais ninguém?"

"Olha, prometer eu não posso prometer, mas se você quer falar com ele, vai ter que dizer quem é..."

Nisso, Beto viu a esposa ao telefone e arrancou dela o aparelho "Tu não presta pra nada mesmo, heim Judite, vai lavar a louça, que tá cheio de cliente aqui! Fica só de papo no telefone!"

"Eu não vou lavar a loça, acabei de fazer minhas unhas no salão da Déte"

"Alô?...Sim, é ele... Você?...Nossa senhora..."

"Quem é essa vadia, Alberto?"

"(Cala a boca, Judite!) Sim, claro, mas eu não sei onde ele está. Ele está foragido da polícia há anos... Por estupro, parece... Não, nenhuma pista... Mas, e você? Onde está? O que houve?... Entendo... Não, ela já veio a falecer, há dois anos... A filha se mudou para a capital... Alô? Alô?"

"Quem era, Betinho?"

"Uma amiga distante..."

"Se tu tiver me pondo chifre, homem, eu te mato!"

"Eu ainda tô vendo a louça suja, mulher…"

Lucélia voltou pensativa para casa.

As dúvidas sobre a morte de João e o desaparecimento das crianças permeavam o coração aflito de Lucélia, mas de uma coisa ela estava certa, por pensar em Edivaldo: corria perigo ali, precisava se esconder.

Um policial reapareceu em sua casa e, ao ser atendido, foi logo dizendo "João não foi assassinado. Ele se suicidou. As digitais dele batem com as da arma encontrada no mato"

Ela o olhou, incrédula "E vocês acreditam nisso? Se ele tivesse se matado, como a arma estaria no mato? É meio óbvio, não?"

"O tiro não foi necessariamente a causa da morte, senhora. Ele morreu afogado no córrego, o tiro disparado por ele mesmo só o fez não ter forças para sobreviver… digo, para se levantar e sair do córrego."

Ela sentou-se, ainda não fazia sentido algum.

"Se a senhora quiser, posso ficar aqui essa noite para sua segurança".

Ela o fitou por uns segundos, recusando em seguida.

Ele se aproximou, olhando-a maliciosamente "Não é bom para uma senhora tão boa ficar sozinha num lugar desses..."

Ela continuou em silêncio.

Ele se aproximou dela, tocando em seus ombros.

Em dois segundos, o copo d'água sobre a mesa estilhaçou-se no chão, após ser arremessado por Lucélia em direção ao rosto do policial, que conseguiu se defender, ficando apenas parcialmente molhado.

Ela saiu correndo, desaparecendo entre as ruas de chão estreitas e obscuras do morro.

Um mês depois, Lucélia reencontrou um dos meninos, Natan.

O garotinho estava sendo cuidado por um casal de andarilhos, numa praia do sul da ilha.

O casal era bom, encontraram o menino há umas semanas e vinham cuidando dele carinhosamente, deixando de comer o pouquíssimo que tinham para dar a ele.

Não tiveram coragem de entregá-lo à polícia, por já terem se apegado ao pequeno.

E também devido ao traumático fato de a mulher não poder ter filhos.

Não foi difícil convencê-los a devolver o menino, vendo e supondo o casal que Lucélia era uma mãe realmente devota e preocupada.

O casal honestamente também informou não saber de nada sobre as duas outras crianças desaparecidas.

Até o final daquele dia, Natan estava em um ônibus rumo ao Paraná.

Lucélia despediu-se do menino com um beijo e uma lágrima, e, do motorista, com um endereço e um aviso de atento à responsabilidade, soado mais como uma ameaça.


Continua...

Djonatha Geremias