À Segunda Vista

Uma informação, por favor!

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Paro o carro na esquina:
- Oi, com licença. Uma informação, por favor.
- Pois não? - responde a mulher sorridente.
- Como faço para chegar na Escola Dom João?

Ela suspira, olha para o horizonte e diz:
- Você não é daqui, né?
- Er... Não, realmente não...
- É muito simples. Sabe a casa do falecido Pedro?
- Não, eu não sou daqui...
- O Pedro, do sindicato.
- Não faço ideia...
- Todo mundo conhece o Pedro, marido da Vânia.

Eu sorrio, paciente:
- Mas é que eu não sou daqui.
- Bom, mas você perguntando pela casa do Pedro, é só virar a esquina, que você já vê a escola.

Vou acelerando o carro devagar e agradecendo, enquanto ela repete com gestos como eu deveria virar a esquina. Sigo umas duas quadras e paro um senhorzinho, desses que parecem ter vivido 80 anos na cidadezinha.
- Oi, bom dia. Uma informação, por favor.
- Pode dizer.
- Onde fica a casa do falecido Pedro, marido da Vânia?

Ele suspira, olha para o horizonte, depois para mim de novo, e diz:
- Quem?!
- O Pedro, marido da Vânia, já falecido...
- Ah, o Pedro da Vânia?
- Isso!
- Do sindicato?
- Isso.
- Ele já morreu.
- Sim, eu sei, mas onde é a casa dele?
- É lá no bairro Januário.
- E por onde eu vou para ir a esse bairro?
- Hã?!
- ONDE FICA... O BAIRRO? - respondo alto, mas educadamente.

Ele me fita por um momento, talvez achando que fui insensível.
- Você não é daqui, né?
- Não...
- Faz assim, então, vou te explicar. Passando o bairro Vera Cruz, vira às direita e vai ter uma lomba. Desce a lomba, vira às esquerda e vai reto. Passa um quebra-molas, passa dois, passou o terceiro, tu vais ver uma casa grande, amarela.
- É ali?
- Não, é do lado.

Sigo dirigindo, tentando memorizar a orientação do velhinho. Espera aí... Onde fica o bairro Vera Cruz? Um menino vem passando de bicicleta devagar.
- Oi, uma informação, por favor! Onde fica o bairro Vera Cruz?
- O Vera Cruz?
- É...

Ele olha para o bendito horizonte e diz:
- É para lá, não sei.
- Tá, mas... Eu sigo reto aqui?
- Se o senhor quiser...
- Não, mas...
- O senhor não é daqui, né?
- Nunca vim aqui.
- Pergunta lá no bar do Nivaldo, que eles sabem.

O menino me deixa sozinho e continua de bicicleta. "Bar do Nivaldo"?
- Oi, uma informação, por favor...
- Pois não, meu querido? - diz um cara, já se apoiando na minha janela.
- Onde fica o Bar do Nivaldo?

Ele fica olhando para dentro do carro. Depois olha o horizonte.
- Não é daqui, né?

Eu só sorrio com uma cara de coitado...
- É em frente à Delegacia de Polícia.
- Por favor! E onde fica essa delegacia?! Por favor!

Ele se desencosta do carro, me olha desconfiado.
- Por quê?
- É que eu preciso ir ao Bar do Nivaldo perguntar onde fica o... Calma, você pode me dizer. Onde fica o bairro Vera Cruz?
- Se a gente não passar em frente à Polícia, eu te levo lá...

Eu olho atônito para o sujeito.
- Entra aí.

A gente dirige uns 800 metros ziguezagueando ruas que nem devem estar no mapa oficial da cidade. O lugar é apertado e deserto.
- Pronto, é aqui.
- Ah. Bom, mas eu me esqueci de falar que eu não quero ficar aqui, eu quero passar daqui e pegar a rua da lomba, para ir ao bairro Januário.
- TU TÁ ME TIRANDO?! Tu tá me tirando?!
- Calma! - digo já quase chorando de medo do sujeito - Não, eu só quero chegar na casa do falecido Pedro, marido da Vânia...
- Cala a boca!! Vou descer aqui!

Quando ele se vira para descer, uns quatro adolescentes aparecem ao redor do carro, mal-encarados.
- O quê que o bacana tá procurando na nossa zona?
- Eu só estou perdido!
- Perdido? Tenho cara de palhaço? Tu tá andando no Vera Cruz com esse filha-da-mãe, que deve pra Deus e todas as "boca" da região?
- Eu não conheço ele, eu juro! Eu só quero sair do bairro, pegar a rua da lomba, virar à esquerda, seguir reto, passar três lombadas e chegar no bairro Januário para perguntar onde fica a casa do falecido Pedro, marido da Vânia!

O liderzinho do grupo olha para os amigos, olha para o horizonte, chega perto de mim – que nessa hora estou tremendo dentro do carro feito um cachorro acuado – e diz:
- ‘Cê não é daqui, né?
- Juro que não...
- ‘Seu Pedro, o do sindicato?
- Uhum...
- Pra tua sorte, eu sou muito respeitoso com a família do falecido Pedro. ‘Que meu pai era amigo dele, então eu sou amigo de quem é amigo do ‘Seu Pedro.

Ele chega perto do meu rosto, me encarando.
- Tu é amigo dele, não é?
- Desde pequeno.

O rapaz sinaliza para os subordinados, que tiram à força o estranho de dentro do meu carro.
- Agora tu faz o seguinte. Direita, esquerda, esquerda, direita, direita, esquerda, esquerda, direita e segue reto. É dois contorno que ‘ce vai fazer.
- Ok...
- Vai reto que vai sair na rua da lomba.
- Obrigado...
- Mas eu vou contigo, e vâmo junto na casa do ‘Seu Pedro, que faz tempo que não peço a benção da Dona Vânia.

Ele entra no carro. Em pensamento, eu rezo para a associação católica dos santos, pais-de-santos, exército dos anjos, deuses da Índia, Budha e até para o Silvio Santos, que minha avó dizia que funcionava. A gente segue o rumo.
- O que o amigo vai querer com a Dona Vânia?
- Eu... eu só...
- Ferrou, maluco!! Os homem cercaram a entrada! Vira esse carro! Vira esse carro, caramba!!

Policiais e duas viaturas trancavam a saída daquela favelinha onde eu havia me metido. Logo reconhecem a criatura do meu lado. A rua é estreita demais para eu virar, e eles pegam a gente. Eu choro feito criança. Por sorte, nos levam para a delegacia.
- O senhor está alegando não conhecer o Zé Rampera aqui?
- Exatamente, senhor delegado.
- Você estava comprando drogas na Favela da Vera Cruz?
- Não, senhor, eu estava indo pedir uma informação.

O delegado olha pela janela, em direção ao horizonte, depois diz:
- Bem se vê que o senhor não é daqui.
- Obrigado pela compreensão.
- Seus documentos estão ok, sem antecedentes, sem drogas. Assina aqui que eu te libero.

Assino uma folha que nem leio o que é.
- De que informação o senhor precisa?
- Preciso achar a rua da lomba depois do bairro Vera Cruz.
- Por quê?
- Preciso chegar no bairro Januário e perguntar pela casa do falecido Pedro...
- Não conheço. Mas aqui em frente, tem o Bar do Nivaldo. Pergunta ali.

Agradeço, atravesso a rua e entro no bar. Um homem corpulento me olha de trás do balcão.
- Você é o sujeito que está procurando pelo Pedro, não é?
- Pedro do sindicado? Falecido? Marido da Vânia?
- E tem outro?
- E como sabe que sou eu?
- A cidade inteira só fala disso.
- Pode me ajudar?

Ele vira o pescoço para olhar o horizonte, mas eu o agarro pelo colarinho:
- Não! Eu Não Sou Daqui! Só, Por Gentileza, Me Diga Como Eu Chego Na Casa Desse Pedro, Pelo Amor De Deus!
- Calma, amigo... É só virar na próxima à esquerda, passar três quebra-molas, a casa do Pedro fica ao lado de uma casa amarela, grande...
- E a rua da lomba?
- É esta aqui, você já passou pela lomba logo ali atrás.
- Obrigado... – digo, soltando devagar o colarinho do homem do bar.

O caminho é tranquilo. Finalmente, a casa amarela e grande. Ao lado, uma casinha miúda, onde uma senhora está cuidando do jardim.
- Dona Vânia?
- Sim?
- Tudo bem? Nossa... demorei para encontrar sua casa.
- Posso ajudar?

Eu olho para ela, cansado, mas satisfeito... Ela continua me observando sem entender... Sorrio disfarçadamente... O que raios eu estava procurando mesmo?
- Eu era amigo do Pedro, que Deus o tenha.
- Ah, é?
- Desde pequeno...
- Nunca te vi.
- Mas eu me lembro da senhora. Só vim, humildemente, pedir sua benção.

Os olhos da senhorinha lacrimejam. Eu me ajoelho diante dela, com a cabeça curvada. Algumas pessoas na rua olham a cena.
- Que Deus e Nosso Senhor Silvio Santos te abençoem, meu filho.
- Amém.

Rumo para casa contente. Fiz algo de bom. A senhorinha se sentiu importante. Fico pensando que tudo na vida tem um propósito. Sabe-se lá o que isso significou para ela... Dirijo fitando o horizonte, feliz com os acasos do destino. Chego em casa, tomo um banho quente, já é tarde da noite. A luz do telefone indica que tem mensagem na secretária eletrônica.

“Alô, senhor Silva?! Aqui é a Marielza, diretora da Escola Dom João... A sua ex-mulher disse que hoje o senhor viria buscar seu filho pela primeira vez, mas já é quase noite e ele ainda está aqui... Ele está chorando... Espero que o senhor não tenha se perdido... É fácil chegar até a escola... Sabe onde mora o falecido Pedro? Ah, o senhor não é daqui, né? Mas é só vir perguntando, que não tem erro..."


Djonatha Geremias