Ela é uma militante comunista, que foi presa e torturada na década de 70, em São Paulo.
Hoje, aos 75 anos, ela continua na luta ideológica contra os torturadores e assassinos da época.
Em entrevista coletiva aos acadêmicos do Curso de Jornalismo da Faculdade Satc, Marlene Soccas conta como tem sido sua vida desde o golpe militar.
Repórter: Como era sua vida antes do golpe militar e como ela se transformou depois?
Marlene: Antes do golpe, eu era uma pequena burguesa. Tinha colares e joias muito caros. Aos 21 anos, eu já era uma diplomada, com graduação em Odontologia. Tinha um grande futuro pela frente. Entretanto, após o golpe, eu (assim como centenas de outras pessoas que lutavam contra a repressão) fui tachada de terrorista, subversiva e outras coisas piores.
R.: Como ficou sua relação com a família e com a sociedade em geral durante as perseguições militares?
M.: Não contei à minha família nada sobre o que eu andava fazendo, pois sabia que era um risco tanto para ela quanto para mim. Minhas joias, por exemplo, eu distribuí para meus entes para que, caso eu fosse pega pelos militares, não ficassem em poder deles. Ainda assim, não contei o porquê daquele ato. Alguns me perguntavam “Marlene, você vai virar freira?”, mas não podia contar. Depois disso, assumi outra identidade. Tinha documentos falsos, precisei mudar meu jeito de falar para uma forma menos instruída, mudar minha letra e procurei um emprego em uma fábrica, onde recebi outro apelido, “obreirista”.
R.: Mas você foi presa mesmo assim, como se deu esse fato se você assumiu outra identidade?
M.: Porque eu cometi um erro muito infantil. Nosso movimento contra o golpe era cheio de pessoas com vontade de mudar a situação do país, mas ninguém tinha experiência, éramos todos imaturos nesse campo. Eu fui presa porque coloquei na minha bolsa meus documentos falsos junto aos meus verdadeiros, além de outras provas que me “incriminavam” como membro dos movimentos revolucionários. Em uma abordagem militar, eles perguntaram meu nome e eu, pega de surpresa, respondi o verdadeiro, mas eles revistaram minha bolsa e encontraram os documentos falsos também. Como pequena burguesa, não fui educada para mentir. Então fui presa.
R.: Como foi sua temporada na prisão?
M.: Quando cheguei lá, fiquei admirada com a quantidade de gente presa. Só ali havia mais de 1500 pessoas, todas eram torturadas. Comigo não foi diferente. Eles me davam eletrochoques, me surravam e me deixavam sem comer, para que, caso eu entrasse em convulsão, não me engasgasse com a comida e falecesse. Eles queriam que eu falasse. Cheguei a ficar quase 14 horas sendo torturada, mas não falei nada que comprometesse o movimento, nem consegui desmaiar (quem me dera pudesse), sempre tive uma estrutura física muito forte e saudável, aguentei tudo.
R.: E quanto às provas na sua bolsa, o que os militares fizeram com elas?
M.: Despejaram em uma mesa e me colocaram para observá-los, esperando que eu tentasse surrupiar algum objeto que eu julgasse importante esconder deles. Fui mais esperta e não movi um músculo. Ali havia uma carta de um membro do movimento me chamando para uma reunião, indicando hora, data e local. Havia também um cartão de Paulo Stuart, outro membro e deputado de esquerda (pelo qual fui apaixonada e que me iniciou na luta política), no qual ficou a marca de batom de um beijo que dei. Se os militares tivessem sido espertos, teriam percebido. Mas, assim que eu saí da prisão, ele foi preso, torturado e morto.
R.: Como você deu continuidade a sua luta após a saída da prisão?
M.: Eu queria denunciar a tortura. Mesmo na época do golpe militar, a tortura era teoricamente ilegal, anticonstitucional. Eu saí de lá com fome de lutar por justiça, mas, como disse antes, não tínhamos experiência para isso. Havia o grupo que pretendia uma luta armada e outro que acreditava em uma luta político-ideológica, que não era menos perigosa que a luta armada. Para mim, ganhar as pessoas através da mente e do coração era mais importante. Sugeri escrever uma carta com a denúncia da tortura, mas o grande grupo não aceitou. Entretanto, eu desobedeci ao coletivo e a redigi. Espalhei por vários lugares, como para a atual Ordem dos Advogados do Brasil e para a Anistia Internacional. Depois de um tempo fiquei sabendo que foi publicada até no The Washington Post, jornal norte-americano. Essa carta serviu de base para, junto a outras cartas e denúncias, formar o famoso livro “Brasil, nunca mais”. Mas a luta continua até hoje. Tentamos enquadrar os assassinos e torturadores da época do golpe nas leis antitortura.
R.: Depois de todo esse tempo pós-ditadura, como você a vê atualmente?
M.: Da mesma forma de como eu a via enquanto a vivenciava. A ditadura veio para cumprir seus papéis, que, dentre outros, era o de colocar a UDN no poder. Esta era composta pelos banqueiros, latifundiários e os realmente grandes empresários, que não conseguiriam chegar ao poder através do povo. Os militares foram a ferramenta ideal para atingirem tal objetivo, pois eles tinham um treinamento específico para torturas. Foram instrumento do imperialismo para impedir que o Brasil avançasse economicamente e se desenvolvesse a ponto de se auto-sustentar. Os imperialistas (subentende-se o governo norte-americano) queriam que o Brasil dependesse deles, que fosse colônia e que fosse fonte de matéria-prima barata. Outro papel da ditadura foi fazer acabar o amor à pátria, o que se mantém até hoje. A apatia atual do povo brasileiro em relação ao país e à política é fruto da ditadura.
R.: Como essa atual visão da sociedade poderia ser revertida, em sua opinião?
M.: Para acabar com essa sociedade alienada e transformá-la em uma sociedade crítica, com o amor restaurado pela cultura nacional e pelo próprio Brasil, há várias formas. Uma delas é através do jornalismo. Os repórteres são peças fundamentais contra as armadilhas do poder. São tão importantes, que foram os primeiros a serem perseguidos com a ditadura, através da censura à imprensa. Os que se arriscavam contra os censores eram também tidos como criminosos e foram presos, torturados e vários foram mortos. O jornalista pode tanto solidificar o status quo da sociedade, como pode transformar a realidade dela. Isso vai depender de em que lado esse profissional vai jogar.








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