Por Djonatha Geremias
Fotos cedidas por Kelley Alves
Kelley Alves conta como é a vida de uma jornalista que lida diariamente com desigualdades, oposições e comprometimento social, sem deixar o “ser mulher” de lado.
Fazer muitas coisas ao mesmo tempo não é fácil, principalmente quando são coisas muito importantes e que envolvem muitas pessoas. Assim é a rotina da jovem universitária Kelley Alves, de 21 anos.
Kelley está no último semestre do curso de graduação de Jornalismo, pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), época de monografias, trabalhos, projetos experimentais, organização de formatura e por aí vai. E sim ela está envolvida com tudo isso.
Ela também é radialista, comandando sozinha um programa de jornalismo na Rádio Comunitária de Içara (Rádio Cidadania 104,9 FM), o programa Ação Cidadania, de segunda à sexta-feira, das 8h às 10h.
Jovem e apaixonada, em meio a tantas responsabilidades, Kelley ainda resolveu se casar na mesma época de fim de faculdade e trabalho na rádio.
Determinação é a palavra que define essa personalidade ativa e corajosa de Kelley Alves, que encara os desafios da vida como poucos são capazes de fazer (pelo menos, não tudo de uma só vez).
Kelley é natural da Bahia e, após o pai receber uma proposta de emprego melhor, veio com a família para o sul de Santa Catarina quando tinha 11 anos de idade, deixando para trás amizades e paquerinhas. “Conheci o frio mesmo aqui no sul”, ela comenta.
Comprometimento Social
Na faculdade, sua monografia trata de análises de editoriais de jornais concorrentes da região de Içara, município onde morou e trabalha há mais de um ano. Além de ser uma tarefa complexa, ela e outra colega, Bruna Borges, se engajaram em um projeto experimental de TV, tratando do tema Desigualdade Social.
Ousado, o projeto consiste em trocar por um dia duas crianças entre suas famílias, uma de classe econômica alta e outra baixa. “A ideia partiu de mim, embora houvesse um programa de TV parecido com troca de mães na TV Record. Os objetivos são diferentes. A Bruna, entretanto, é quem cuida de toda parte de edição do trabalho. Nós conseguimos amadurecer a ideia inicial, que foi aprovada pelos nossos professores, que já no adiantaram que seria um trabalho difícil”, explica Kelley. “Ser difícil” não parece ser algo que barre a jovem.
Com a supervisão de um psicólogo e de uma assistente social, Kelley reuniu em sua própria casa as duas crianças (meninas de 6 e 11 anos) para interagirem inicialmente e realizar atividades dinâmicas para terem consciência do projeto, como por exemplo, fazer recortes em revistas de objetos que elas imaginavam encontrar na casa da outra criança. Depois, houve o acompanhamento da troca de lares por um dia, no qual as crianças perceberam como a realidade é diferente até do que elas imaginavam que fosse.
Segundo Kelley, houve muita burocracia para conseguir convencer os pais a permitirem a realização do projeto com as meninas, principalmente porque seria filmado. As primeiras filmagens começaram há cerca de um mês e o trabalho está em processo de finalização, faltando apenas transcrever os resultados para o encarte que acompanhará as filmagens em DVD.
“Não era só um trabalho de conclusão de curso. É uma forma de mudar a realidade, contribuir de alguma forma. O que essas crianças aprenderam contará muito para a forma como elas verão a vida dali em diante. Além disso, todos nós (estudantes, psicólogo, assistente social e professores) aprendemos muito e sei que muitos estudantes, com esse projeto pronto, irão aprender bastante também”, conta Kelley.
O Casamento
Também há cerca de um mês, Kelley Alves e o jovem técnico de informática Edemur Zilli resolveram “juntar as escovas de dente”. O casamento seria um passo decisivo na vida do jovem casal evangélico que já namorava há seis anos, guardando-se um para o outro.
“Minha mãe dizia que era cedo, mas eu sempre fui meio teimosa e obstinada. Nós já sonhávamos com o casamento há tempos e conseguimos transformá-lo em realidade”, diz a jovem.
O que a realização de um casamento tinha de agradável, a correria para a preparação dele tinha de corrido. Enxoval, vestido, restaurante, cerimônia, convites, convidados, buffet... Mais tantas responsabilidades que Kelley Alves assumiu firmemente, com apoio da família e amigos.
Uma vez consumada, a união trouxe aquelas novas responsabilidades que poucas pessoas são capazes de suportar: o convívio diário (isto é, lidar com o bendito xixi do companheiro sobre o vaso sanitário). “Só não quero ter filhos agora, aí já seria demais para mim”, comenta de forma bem-humorada.
A Rádio
O profissionalismo de Kelley é comumente desafiado durante suas entrevistas no programa de jornalismo Ação Cidadania, que comanda diariamente. Questionar, duvidar e apresentar os fatos são ações que sempre deixam muitos entrevistados resabiados, principalmente no meio político.
“Algumas pessoas não entendem e levam para o lado pessoal. Se eu entrevisto alguém da administração municipal, por exemplo, eu certamente vou entrevistar também, sobre o mesmo assunto, alguém da oposição, e vice-versa. Eles querendo ou não, gostando ou não. É meu dever como jornalista. Mas não dá para agradar a todos”, explica a radialista.
Jornalismo de rádio comunitária é de fato para a comunidade. Assim, “pequenos” assuntos são tratados com a devida importância pela rádio. “O povo não quer saber apenas dos trâmites econômicos do município, ou das notícias de outras localidades. O Ação Cidadania vem para solucionar os problemas diários e corriqueiros que atrapalham demais a vida da comunidade, como aquela poça fedorenta na rua, ou aqueles buracos que atrapalham o trânsito dos veículos, ou ainda o sumiço de pessoas e animais de estimação”, revela Kelley.
Kellley Alves
Ser esposa, jornalista, ser universitária, radialista, ser mulher... ser humana. Assim é a vida corrida de Kelley Alves, que, como de costume, pretende ainda ir muito além depois dessa etapa da vida.
Mulheres como Kelley não param após o sucesso e fazem seu nome ficar registrado na história, senão na do país ou do mundo, na vida de muita gente, como a deste amigo que a entrevistou e agora vos escreve.