À Segunda Vista

Minha melodia imperfeita

0
Hoje sentei-me à praça.

As palavras "Minha melodia imperfeita" ainda soavam desde cedo na mente - acordei com elas.

Atrás de mim, a igrejinha lotada de fiéis, todos cantando o Corpus Christi. Nas minhas mãos, o caderninho de entrevistas. A máquina fotográfica envolta no pescoço, e a caneta girando entre os dedos.

O sol ardia no céu azul, mas perdia feio para o vento frio de inverno, que me tremia. Eram 14h30min, fui escalado para acompanhar a procissão que sairia daquela igrejinha de bairro e iria até a principal do Centro. Por acaso, a missa atrasou a procissão... por tempo indeterminado.

Sentei-me no banco gélido de concreto da pracinha.

"Minha melodia imperfeita..."

À minha frente, uns 20 garotos jogavam bola. Ao meu lado, um idoso no carro falava ao celular com voz autoritária. Do outro lado, nem lembro, muitos carros estacionados, talvez...

Meu pensamento se voltou para o caderno e a caneta. O que mais um escritor poderia fazer sentado em um banco de praça, sem ter o que fazer e segurando duas ferramentas poderosas e cheias de potencialidades? Nada.

Não consegui pensar em nada para escrever porque aquelas palavras estavam me distraindo.

"Minha melodia imperfeita..."

Resolvi escrevê-las. Nada mais, nenhuma inspiração. O vento frio soprou de novo. Como o frio sabe nos distrair dos pensamentos - não é à toa que tantas pessoas só conversam sobre o clima.

De repente, o estalo. Era o vento a mão da natureza me cutucando e dizendo...

"Preste atenção em mim"...

Então reolhei o que estava acontecendo ao meu redor. Os garotos não só jogavam bola. Eles eram parte da vida acontecendo. Em época de Copa do Mundo no meu país, alguns deles estavam com a camiseta amarela da seleção brasileira. Resolvi observá-los e tirar dali meu poema.

Começou assim:

Minha melodia imperfeita
Raio de sol com vento frio
Sopra na pele uma potência delicada
Convidada, tímida
Observada

Olhei para aquelas palavras... Seria isso? Foi por isso que acordei ouvindo aquela expressão? O vento me bateu no rosto de novo. Me fez olhar para os lados. O velho no carro falava ao celular com um tom arrogante - justo o que o diferencia um idoso de um velho -, mas depois deu uma risada, que me fez repensar o prejulgamento que fiz dele.

A caneta girou nos meus dedos de novo:

Minha melodia insatisfeita
Ressuscita, quão tedioso é morrer
Se aquecer no frio
Se esquecer num rio
Ignorado, engordurado
Trêmulo

Não! Não pode ser isso. Está tão pesado, tão duro, tão mórbido... Não quero criar algo assim. Olhei para os lados, em busca de outra dica da vida. Enquanto eu procurava, uma mulher se atravessou na minha frente, caminhando com um bebê envolto em um cobertor. O menino não tinha nem um mês de vida, penso.

— Olha o tio jogando, filho... — disse a mulher, apontando para um dos meninos jogando bola a nossa frente.

Dois garotos largaram a partida e vieram cuticutar o neném. Isso me fez esquecer o velho estranho e me focar no humanozinho quentinho ali, nos braços da mãe, sendo paparicado pelos jovens. Segui:

Minha melodia atrasada
Caminhou por décadas
Os caminhos decaídos
Dos quase encontros
Beija calorosa minha barba revolta
Minha tola revolta que renasce
Bebezinha, acobertada
Amada

Ah, um pouco mais de leveza, finalmente. Tinha novamente frases leves que fluem melhor, mas, sobretudo, um calor que eu não estava sentindo antes. A poesia fria começava a me aquecer. Fui surpreendido por duas menininhas caminhando lado a lado.

— Se eu te der um balão daqueles, tu vai melhorar?
— Não.
— Ah... mas eu já ia te dar de qualquer jeito.

Minha primeira reação foi rir e depois anotar essa fala no caderno, em uma página aleatória que nem consegui reencontrar - mas ficou gravado na memória. Aí percebi o que faltava no meu poema.

Dessa vez, nem senti o vento:

Minha melodia recém chegada
Que distrai os homens-estrelas
Frágil, protegida
Rolando na grama úmida, enternecida
De um inverno invertebrado
Sem a coluna das calúnias
das melodias passadas

Ok, não foi nada do que eu pretendia. DONG! Toca o sino da igreja. Olho a hora no celular: 15 horas. Meia-hora passou rápida... Olhei para a igrejinha, o povo lotado na porta, tentando olhar a missa lá dentro. De vez em quando, cantavam em coro suave.

Minha melodia amadurecida
Limpa das cagadas da vida
Dos lençois revirados
Dos dedos gelados
Trabalha agora em meu corpo
Adulta, robusta, pesada, não cantada
Que tédio... é hora de morrer de novo.

Outro "de repente" me chamou a atenção:

— Gordo desgraçado!

Gritou um dos meninos que jogavam bola. Gostei da experiência de ouvir as duas meninas antes, então me propus a ouvi-los. Melhor: abandonar de vez essa poesia impertinente que me insistia e, agora, criar uma nova, somente com as falas dos jogadores.

Se esporte é cultura, por que não?

Gordo desgraçado!
Vai marcar agora o tempo?
Não... vou marcar tua mãe!
Falta aqui!

Sempre que é gol, troca?
Três gols, muda de time.
É dois gol!

Foi mão!
Não foi!
A bola é nossa.
A bola é minha!

Atrás, Felipe!
Bate aí, negão!
É nego mesmo, né...
O goleiro é burro.

Corre, corre, corre!
Vai! Vai! Vai!
Não fala assim...
Se ferremo.

Foi trave, hein.
Um a zero.
Vira, Leo! Vira, Leo!
Vai, macaco!
Rebenta!

Foi falta ali!
Se jogou, se jogou...
"Me toca", que é isso?!
Ah, ninguém merece, né...
Deixa, deixa!
Vai, viado!

Meu neguinho banzo...
Para de conversar!
Daí, cara, tu vai encarar?
Tão falando de mim?
De...dos... iguais!

DONG! O sino da igreja tocou de novo. Será que ele toca de meia em meia hora? Não... já são 16 horas! E nada de a procissão começar...

"Minha melodia imperfeita..."

Que saco! De novo?! Você não cansa?! Não saiu nada! Eu tentei mil vezes antes, busquei inspiração em tudo ao meu redor e não consegui nada! Nada! Me deixe em paz...

E aí eu percebi, apesar do frio, que eu estava em paz. O sol quente, o vento frio, o velho no carro, os meninos jogando bola, o bebê quentinho, as meninas amigas, os fiéis cantando na igreja, eu sentado em um banco de praça, em um feriado tranquilo, com papel e caneta na mão, tentando compor poemas, ouvindo os sons da vida, observando as cenas da vida...

Eu estava em paz, tinha meus amigos, meu amor, meu emprego de escritor, jornalista, enfim... não era a canção que eu esperava ouvir quando acordei, era imperfeitamente perfeita, a minha canção de harmonia.

As pessoas na igreja começaram a sair, entrar nos carros, o padre falando ao microfone, chamando as pessoas para a procissão. Estava na hora de continuar a vida, trabalhar, fazer aquilo de que eu gosto tanto.

Pulei do banco, liguei a câmera fotográfica e corri em direção à pauta,
feliz por ter entendido
que todo esse texto
e contexto
eram, eles mesmos, a
"Minha melodia imperfeita"...


Djonatha Geremias