À Segunda Vista

Índia no Lago

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A superfície paralisada do verde lago
reflete o musgo da beira
O ar úmido amornecido pelo céu
entoa uma cor de maçã mordida e esquecida

A serenidade do tempo, lento e suave,
cansa o inseto que pousa no lago
Quase não se move o caldo de águas
que, denso, oculta um segredo

Passos leves amaciam o gramado da beira
enquanto pula assustado para o lado um grilinho
Olhos compenetrados fitam o fundo do lago
encarando-se de volta os olhos na superfície

Como podem olhos tão vivos e iluminados
se tornarem represa de lágrimas contidas?
Um olhar que sorri em esforço de conter
e que deixa escapar gota a gota um vazio

Uma vida que anseia acontecer,
explodir, se tornar, descobrir
Ante à face de uma índia,
de uma filha, de uma flor, de uma menina

A cada dia, o lago se enche mais
Uma gota por dia a mais
Uma lágrima que cai sem mais
Esvaziando os sonhos de quem não volta

Brilha o anoitecer sem nuvens
Estrelas não esquecem nem por um momento
São testemunhas de um desavisado desencontro
Entre o olhar esperançoso da índia
e um tolo amor desconhecido
que se perdeu em algum canto.

Djonatha Geremias