À Segunda Vista

Palavras que não podem ser ditas

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Aqui estão escritas palavras que não podem ser ditas
que têm um poder grandioso de permanecer pela eternidade
palavras que estão gravadas cravadas escravizadas dentro de mim
e agora nessas paredes

Essas palavras não podem ser lidas com olhos ou dedos
Não existe som que as pronuncie, nem símbolos que as represente
Aqui estão as palavras mais fortes, imponentes e lindas
que já passaram pela mente humana
Elas estão aqui, socadas com uma intensidade absurda
que só entende quem for capaz de entender um autor que acontece agora,
enquanto buscar tentar entendê-las ou descobri-las
se for você

Se for você quem souber decifrá-las, respeite-as
elas foram escritas com minha alma, grudadas nessas paredes como uma tinta em uma espátula
limpadas como comida grudada no fundo de uma panela
fazendo referências com que pode existir na efemeridade
só porque não há espaço para elas nesse mundo

São as palavras mais difíceis de serem ditas, que não podem acontecer
Que estão engasgadas sufocadas proibidas de serem ditas
Palavras que estão presas atrás de um olhar indignado impossibilitado que se esqueceu de piscar
Mas elas conseguem escapar por eles às vezes enchendo de significado a mais discreta lágrima

Toda fúria dos sentimentos ainda não catalogados
esperando pela evolução da razão para defini-los
(ou não, porquanto são selvagens por natureza)
sucumbem na distorção de todos os outros sentimentos,
na busca incessante por palavras hierarquicamente inferiores,
juntando todas que existem para tentar chegar perto da palavra suprema
que define tudo que está aqui, arrasado nas paredes, escritas a dedo, unhas, carne e sangue
onde não se pode reparar, ver ou tocar, nem sentir
só estão ali, esperando, potentes pacientes silenciosas
o corpo que as dará vida

As palavras me agarraram como um vírus buscando um hospedeiro,
mas ainda assim não fui autoexistente o suficiente para criá-las
me rebaixo, me encolho, me definho, imprestável
elas me escolheram, mas não fui capaz
talvez outro não surja em milhões de anos planetas universos amores
e eu fui incapaz, que não pude lê-las aqui, porque elas estão aqui
desafiando qualquer um que leia essas divagações
não fui digno de parar, não me controlei, me perdi no portal
das cópias imperfeitas, da prostituição das palavras e sacrifício de todas as outras
em busca de algumas que ainda não existem
me afundo, me perco, desisto

Djonatha Geremias