À Segunda Vista

A menina que estudou comigo

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Tinha uma menina que estudou comigo por vários e vários anos no Ensino Fundamental. Na turma, sempre tinha outra menina com o nome dela, e a gente a reconhecia pelo sobrenome, que lembrava o de uma fruta e, por isso, sempre havia piadinhas da turma do fundão. O meu nome, no entanto, Djonatha, pela escrita com D e J, sempre era único.
A garota não era muito inteligente nas matérias, convenhamos, mas era muito divertida. Por se expor demais nas brincadeiras, muitos garotos zoavam com ela, mas ela sabia brigar e se defender na maioria das vezes. De vez em quando brigava também com alguma guria, mas o que ficou marcado mesmo da personalidade dela era a risada infantil e divertida que sempre teve.
Quando ela estava no nosso grupo de trabalho, a gente já sabia: a contribuição acadêmica não seria lá grande coisa, mas a diversão era certa! E isso, para um grupo de estudantes, valia muito mais do que uma nota 10, especialmente para mim, que sempre fui o garoto nerd da turma, o "CDF" (cabeça de ferro) como chamavam na época.
Lembro-me de um trabalho que fizemos em argila, sobre a pangeia (o nome dado aos continentes do planeta quando ainda estavam juntinhos, há milhões e milhões de anos). A gente se sujou dos pés à cabeça, e essa menina estava lá, rindo e jogando argila na gente, e lá se foi um dia inteiro de guerrinha de lama. Tenho as fotos até hoje que minha mãe fez com aquelas máquinas ainda do tempo do rolo de filme negativo.
No fim da tarde, uma pangeia que mais parecia um bolo de lodo seco, que em nada lembrava o desenho no livro de História. Nessa época, começamos a conversar mais ela e eu. Uma vez, ela foi lá no meu quarto me pedir ajuda em Matemática. Minha mãe achou que seria minha primeira namoradinha, mas não foi nada além da amizade.
A gente se formou na oitava série e, como a escola não tinha Ensino Médio, os caminhos se separaram. Nunca mais a vi. Após alguns anos, quando reencontrei outros colegas daquela época, ouvi deles que a menina, já adolescente, tinha engravidado e ido morar com um rapaz. Depois disso, nunca mais tive notícias daquela menina sapeca, de cabelos escuros muito lisos e curtos, na altura dos ombros.
Passaram-se meu Ensino Médio, uma tentativa de faculdade (Física), outra tentativa (que deu certo no Jornalismo) e hoje, 11 anos depois, encontro o perfil da moça nas redes sociais. Já maior, com corpo de mulher, cabelos loiros, mas o olhar e o sorriso o mesmo daquela menininha. Pensei em adicionar, mas tive receio. Não sei se ela se lembraria de mim, até porque mudei bastante de lá para cá. E, se lembrar, não deve ter dado muita importância.
A primeira foto que me chamou a atenção foi a dela ao lado de um homem e um bebê. Na legenda, explicava que eram o marido e o filho. O nome do menino... Djonatha.